Ouço a chuva cair lá fora, determinada. Ela sabe bem o que quer e não hesita por um segundo. Quando decide cair, não há nada que a faça voltar atrás. Ela não tem medo de seguir o caminho que escolheu. Faz barulho, muito barulho! Incomoda alguns, agrada outros, mas não lhe interessa.
Ouço a chuva cair lá fora, determinada. Escolheu este dia, mas podia ter escolhido outro qualquer. Ela cai quando quer. Não pede opinião. Ela tem sempre a certeza do que vai fazer. Vem lá de cima, numa viagem que eu gostava de poder ver. Não tem medo de se atirar sem saber onde vai cair. Atira-se e logo vê. Há-de correr bem. Se tiver sorte vai correr bem e ela acredita sempre que vai ter sorte e tem. Ouço a chuva cair lá fora, determinada. Não interessa onde a viagem acaba, não importa onde a viagem começa, o que a motiva é a vontade de arriscar. Ela é maior e mais pequena, é mais pesada e mais leve, é mais forte e mais frágil, mas não se preocupa. Ela sabe o que quer e isso chega-lhe. Ela quer cair como quem sobe. Ela quer perder-se como quem se encontra. Às vezes, eu gostava de ser mais como ela, como a chuva. Gostava de ter menos medo e mais vontade. Gostava de ter mais certezas e menos hesitações. Gostava de ser maior e mais pequena, mais pesada e mais leve, mais forte e mais frágil. Gostava de ser. Gostava, só, de ser.
Ouço a chuva cair lá fora, determinada.


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