É verdade, eu deixo a minha filha chorar!!!
Nasceu a chorar, eu diria até melhor, nasceu a berrar. No entanto, mal se ouvia. O esforço visível na sua expressão, não correspondia, de maneira alguma, ao volume dos seus mini berros. Foi o dia mais doloroso e ao mesmo tempo, o mais feliz da minha vida. Pus a minha filha no mundo! Ah granda mulher! Mas voltando ao assunto, ela nasceu a chorar e eu, logo nesse primeiro dia, deixei-a chorar. Ela andava de um lado para o outro, de colo em colo, de enfermeiro para enfermeiro, do pai para um outro enfermeiro e eu estava ali deitada, a sorrir, mais feliz do que nunca e a deixá-la chorar, até que a pousaram no meu colo e ela parou de chorar. Sentiu-se em casa e ficou calma e eu nesse dia soube que ia deixar a minha filha chorar. Parece-vos estranho? Estão com vontade de me atirar pedradas? Pois então, atirem! Eu deixo a minha filha chorar. Ainda na maternidade, quando chorava, eu deixava-a chorar e depois quando chegámos a casa, a mesma coisa. Até hoje, eu deixo-a chorar. De noite, quando não consegue dormir, eu deixo-a chorar. De dia quando não quer comer, eu deixo-a chorar. Quando vê alguém estranho e fica assustada, eu deixo-a chorar. Há quem concorde comigo e há quem diga que eu faço muito mal. Mas eu é que sei o que é melhor para ela e então deixo-a chorar.
De noite, quando não consegue dormir, corro até ela, dou-lhe a mão e se for preciso pego-a ao colo e deixo-a chorar. De dia, quando não quer comer, brinco com ela, faço macacadas, monto um circo e deixo-a chorar. Quando vê alguém estranho e fica assustada, pego nela ao colo, abraço-a com muita força, encho-a de beijinhos e deixo-a chorar.
Sempre que ela chora, dou-lhe o meu colo, dou-lhe o meu abraço, dou-lhe o meu corpo, dou-lhe a minha alma, dou-lhe o meu carinho, dou-lhe a minha força, dou-lhe a minha atenção, dou-lhe o meu amor, dou-lhe tudo o que tenho e ainda arranjo mais para lhe dar, e deixo-a chorar.
Deixo-a sempre chorar porque não tenho outra hipótese. Deixo-a chorar porque ela vai chorar e porque tem de chorar. Deixo-a chorar porque, independentemente do que eu possa fazer, mais tarde ou mais cedo, ela acaba por chorar. No entanto, dou-lhe uma certeza, é que sempre que ela chorar eu vou estar lá e no que depender de mim, ela não vai chorar.

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